Thaís Chanes
Quando era criança, costumava encenar peças com as minhas primas na sala de estar. Mais tarde, fiz aulas de teatro para «curar a minha timidez» — e apaixonei-me por isso. Quando disse à minha família que queria ser atriz, eles riram-se, pensando que era apenas uma piada — ou, na melhor das hipóteses, uma fase.
Mas não era.
Aos 16 anos, tomei uma decisão estratégica — que mantive como segredo de Estado: seguir uma carreira «séria», poupar o que não tinha e, um dia, fazer o que bem quisesse com a minha vida. Um passo atrás, dois passos à frente.
Então, estudei Direito na Universidade de São Paulo e trabalhei como consultora tributária por quase uma década, enquanto secretamente me formava como atriz — chamando isso de «hobby» apenas para entrar no jogo.
No teatro, ouvia frequentemente: «Tu actuas para a tela». Eu não entendia muito bem — nunca tinha trabalhado com uma câmara. Mas quando comecei a assistir a filmes clássicos… foi amor à primeira vista. O tipo de flechada que nem mesmo Nietzsche poderia explicar.
Depois de assistir a Sunset Boulevard (1950, Billy Wilder), atuar não era mais suficiente. Naquela noite, senti uma vontade urgente de criar — e me inscrevi num curso de guião na Argentina.
Esse foi um ponto de viragem. Hora de parar de sonhar e começar a agir.
Aos 32 anos, quando tinha tudo para viver uma vida confortável no piloto automático, fiz o impensável: escolhi a liberdade em vez das garantias e comecei a abrir mão — de um emprego, de uma profissão, de um país e, acima de tudo, de velhas crenças.
Em 2021, mudei-me para Madrid com uma mala, um violão e uma nova crença: o único fracasso real é não tentar.
O que eu realmente precisava era estudar representação para cinema.
Concluí um mestrado em Representação para Cinema na TAI Arts em 2022, onde investiguei como atores e diretores criam personagens de cinema de forma colaborativa. Mas a minha curiosidade — praticamente um karma pessoal — levou-me mais longe, e fiz um segundo mestrado em Realização Cinematográfica, também na TAI, em 2023.
Com um diploma em cada mão e sem um único cêntimo — ou céntimo — para gastar, senti a necessidade de colocar todo esse conhecimento em prática. Nos anos seguintes, continuei a trabalhar em sets por toda a Europa — em inglês, espanhol e português.
Hoje, o meu trabalho centra-se no que fica por dizer — desejos não expressos, ações imperfeitas e os recantos íntimos da alma de uma personagem. Sinto-me atraída por histórias que exploram o impulso humano para a autorrealização.
Em 2025, esta investigação levou-me a cofundar a Companhia Limen, onde investigo a representação e o inconsciente na criação de personagens.
O resto ainda está por escrever. A minha exploração está apenas a começar.